Estou em: Início / Injustiçados: 207 SW

terça-feira, 13 julho, 2010 - 19:28

Injustiçados: 207 SW

Com boa relação custo/benefício, perua Peugeot sofre com a falta de prestígio do segmento

No terceiro post de série "Injustiçados" do AutoDiário, caberia fazer menção a uma injustiça geral: o baixo interesse da indústria brasileira e dos consumidores por peruas, ou station wagons - SW. Esse segmento do mercado nacional já teve seus dias de glória. Nos anos 80, as peruas disponíveis no mercado (Marajó, Parati, Quantum, Caravan, Belina, Elba etc.) eram cobiçadas por sua versatilidade, seu espaço superior a outras classes de carros e pelo design, que namora um pouco a esportividade. Chegamos à década seguinte e as peruas continuaram em alta. Entre as pequenas, destaque para a Palio Weekend, que tomou o reinado da Parati. Já entre as "grandes", surgia a Marea Weekend. Entretanto, alguns modelos já não possuiam a derivação "familiar", como é o caso do Vectra B, que tinha a opção em outros mercados. Nos anos 2000 e a sentença de "morte" temporária chega para as peruas por conta das minivans. Em 2001, o trio Zafira, Scénic e Picasso fez com que as peruas começassem a ser deixadas de lado. A Meriva, um ano depois, veio para fechar o caixão do segmento.

Primeiro modelo, lançado em 2002

Em idos de 2004, 2005, uma luz no fim do túnel: a Peugeot ofereceu dois modelos, a 307 SW e o personagem do "Injustiçados" de hoje, a 206/207 SW. Ao mesmo tempo Toyota e Renault esforçavam-se para manter o segmento aquecido, com Corolla Fielder e Mégane Grand Tour. A Volkswagen até tentou inaugurar um novo segmento com a SpaceFox, o das “sportvans”, como ela quis chamar, uma mistura entre minivans e peruas. Todavia, não é a mesma coisa. Por fim, toda essa contextualização se faz necessária para ilustrar a miséria do segmento, principalmente da parte debaixo, a das peruas compactas, representado hoje pela líder Palio Weekend, pela jurássica Parati e pela 207 SW.

Versão especial Moonlight, lançada em 2008

A variação perua do compacto 206 surgiu em 2002 no mercado europeu e 3 anos depois no brasileiro, em maio de 2005. Em termos estéticos, a 206 SW inovou com as lanternas posicionadas do lado do vidro traseiro (estilo inaugurado pelas clássicas peruas Volvo) e pela maçaneta da porta traseira embutida. No geral, eram linhas atraentes e que demonstravam versatilidade - marcante no caso da abertura independente do vidro traseiro -  e esportividade. Com duas motorizações (1.4 8v e 1.6 16v, ambas a gasolina), a 206 nunca chegou a ser um "best-seller", mas conquistou um certo público: foram mais de 10 mil unidades vendidas em 2005. Em 2006, ganhou motores flex. Seu pequeno 1.4 passou de 75 cavalos para 82 (álcool) e o 1.6 16v ganhou 3, passando para 113 cavalos de potência, também no álcool. A versão menos potente era criticada por sua falta de força quando carregada, utilização comum em veículos do gênero, mas nada muito marcante: fazia de 0-100 em 16 segundos e batia os 160 quilômetros por hora, números semelhantes aos da líder, Palio Weekend, que passou a contar com motorização 1.4 também em 2006. Já a versão 1.6 empolgava bastante, passando a esportividade que seu estilo também mostrava.

Escapade, lançada em 2006 para competir com linha Adventure

Internamente, tudo quase igual ao 206 Hatch. O que significa elogio em termos de acabamento, beleza interna e itens de conveniência, porém crítica devido ao parco espaço destinado aos ombros e pernas dos ocupantes. Infelizmente, o pouco espaço traseiro era e é característica também da suas concorrentes Fiat e Volkswagen. O porta-malas pode ser considerado mediano, cerca de 310 litros, semelhante aos modelos da sua categoria e às minivans como Idea - lançada em 2006 - e Meriva.  Mas até aí não havia injustiça alguma: suas vendas cresciam e a 206 SW chegou a vender mais de 16 mil unidades em 2007. Um ano antes a perua ganhou a versão Escapade, de espírito aventureiro, fazendo frente à linha Adventure da Fiat. O modelo chegou a fazer um certo sucesso, ficando responsável por uma boa parcela das vendas da perua.

Interior igual ao do modelo hatch - no caso o da versão Moonlight 

Apesar da mudança em termos de equipamentos e pequenos detalhes estéticos da linha 2007, a perua Peugeot começava a cair nas vendas. A montadora se mexeu e disponibilizou câmbio automático tiptronic (de origem Porsche) para o modelo mais caro (Feline) e criou uma série especial com teto-solar, a Moonlight. Mas, os resultados não surtiram efeito.

Reestilização, lançada no fim de 2008

O ano era de 2008 e o mundo se encontrava em uma mega crise econômica, que, obviamente, encontrou espaço também na indústria automotiva. Enquanto os europeus andavam em uma nova geração do 206, o 207, desde meados de 2006, nós teríamos que nos contentar com uma adaptação local. A fábrica de Porto Real, interior do Rio de Janeiro, decidiu então colocar a frente do 207 europeu (popularmente conhecida como "Bocão") nos modelos antigos e, infelizmente, nomeou a adaptação como 207. Naturalmente, as críticas foram enormes e o público da Peugeot, acostumado a novidades, rejeitou de certa forma a reestilização. As vendas cairam de 16749 unidades em 2007 para 8305 em 2009.

Escapade, responsável por boa parte das poucas vendas da perua

Atualmente, a 207 SW vende cerca de 400 unidades por mês. Injustiça? Sim. Por que? Apesar da falta de modificações estruturais, a pequena perua encontra-se em um segmento defasado e apresenta uma boa relação custo/benefício. Em termos comparativos, a líder do segmento, a Palio Weekend, está na sua quarta reestilização sobre a mesma base (lançada em 1997) e vendeu em junho mais do que a 207 vendeu no ano inteiro (2664 X 2526, até 12 de julho). Até a jurássica Parati vende mais: 1100 unidades a mais do que a Peugeot em 2010. Mas o que ela tem para oferecer ao consumidor para ser considerada um caso injusto?

A linha 2011 foi lançada agora em julho e dispõe de apenas duas versões da perua: XR Sport 1.4, oferecida por 42.200 reais. Por esse preço, temos como itens de série ar condicionado, direção hidráulica, quatro vidros elétricos, rodas de liga leve aro 14, alarme por telecomando na chave, entre outros itens. O preço pode ter algum desconto, geralmente oferecido nas revendas autorizadas. A Palio Weekend, com os mesmos itens da 207, passa de 48 mil reais no configurador da Fiat. A Parati, praticamente destinada a venda direta, também é mais cara. A outra configuração para a 207, a mais cara, XS 1.6 16v, com câmbio automático, está disponível a partir de 50.990 reais. Salgado sim, mas se pararmos para analisar os itens de série, não é tão abusivo assim: além do trivial, a XS oferece controle digital do ar condicionado, vidros elétricos com comando nas portas, rodas de liga leve aro 15, sensores de chuva e crepúsculo, com acionamento automático dos faróis, freios ABS, computador de bordo com tela multi-funções, rádio com comando na coluna do volante, entre outros itens. E o airbag? 1300 reais. O que significa uma perua compacta com a comodidade do câmbio automático e itens de segmento superior por 52 mil reais, preço que pode cair também.
A Escapade parte de 46.500 e equipada com airbags e ABS, chega a 49.500. Isso com o bom motor 1.6 16v. Perto da Palio Adventure, que parte de 53 mil reais, sem itens como ar digital, sensor de chuva, por exemplo, é pechincha.

Apesar do design controverso, do espaço interno mediano e da desatualização perante ao mercado europeu, a 207 SW merecia um pouco mais, pois oferece um bom conjunto a preços razoáveis. Para quem deseja a praticidade e o charme de uma perua compacta, é a opção mais sensata do segmento, uma vez que a Weekend oferece o mesmo por um preço superior e a Parati, bom, você já sabe.

Para finalizar, infelizmente o futuro desse segmento não é dos melhores. Há especulações que afirmam que a próxima geração do Palio terá um crossover no lugar da Weekend e a Parati de nova geração não deve chegar tão cedo. Uma pena.

Texto e reportagem: Bruno Sponchiado Vieira

Imagens: Divulgação

Images